Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

MARIA DO ROSÁRIO QUESTIONAR É OFENSIVO?

.


Cara Maria do Rosário,

Teve a sensibilidade de apagar um comentário feito de perguntas, justificando o facto por considerar tratar-se de um ataque gratuito contra Josh Trindade.

Pois pergunto se questionar é ofensivo e se em algumas das perguntas formuladas - que pode argumentar tratar-se de insinuações mas, em boa verdade não se tratam de insultos porque a linguagem nem tangente foi ao calão ou à ofensa gratuita, terá de reconhecer - algum dos argumentos subjacentes é considerado inválido, independentemente de estar de acordo ou não.

Pois poderá expor-se parcialmente de outra maneira: as ideias anti-lusofonia em Timor-Leste expressas por pessoas da geração de Josh Trindade reflectem um sentimento de discriminação legítimo, na medida em que lhes foi imposto (não interessa agora para este arrazoado se de forma "legítima" ou não)a aprendizagem do português para poder colocar ao serviço de Timor as competências que adquiriram noutras línguas. Mas, muitas vezes, os argumentos invocados baseiam-se em falácias (neo-colonialismo, pobreza associada ao uso do português, inutilidade do mesmo, etc...) ou em generalizações (paternalismo de mestiços, geração de 75 e portugueses) que parecem mais alimentar-se das mais que legítimas frustrações destas pessoas do que de razões pragmáticas para as mesmas.

E a anglofonia voraz, predatória, fundada em princípios que ultrapassam a exiguidade geopolítica de Timor-Leste, tendem a alimentar ainda mais as frustrações destes jovens Timorenses em seu benefício próprio. Não em benefício efectivo de Timor (estudando o mundo anglo-saxónico, estas conclusões são mais que óbvias...) .

Erros no sistema de ensino e disseminação da língua portuguesa em Timor são mesclados com a língua em si que também não deve ser enxovalhada como se observa nalguns comentários (aliás, nenhuma língua deve ser enxovalhada, é o mesmo que rebaixar povos inteiros, sendo cientificamente incorrecto falar de línguas desenvolvidas, sub-desenvolvidas, melhores ou piores). Injusta e desproporcionadamente, a língua portuguesa é o bode expiatório dos males da juventude timorense.

E poucas são as pessoas que tentam desmistificar isto , que a escolha da língua portuguesa não é um ataque pessoal contra esta geração. Foi uma escolha fundamentada em razões culturais, históricas, linguísticas (apoio ao tétum) e até económicas (mais ainda na actualidade, com pelo menos duas economias emergentes na CPLP), factores que infelizmente também foram provavelmente conspurcados com paternalismos e coisas afins - mas que não devem ser o verdadeiro alvo de ataque, ou o debate enviesa-se.

O problema está nas formas de disseminação do português que têm erroneamente deixado de fora (ensino) grande parte estes jovens.

O problema está também no facto de se criar a ideia de que o tétum é para secundarizar face ao português, surgindo uma imitação do modelo suhartista imposto na Indonésia: rejeição total do holandês e criação de uma língua nacional que a suplantasse (no caso de Timor, o tétum, no caso da Indonésia, o indonésio).

É uma opção legítima como outra qualquer, mas digamos que o raio de alcance geopolítico do mundo holandês é particularmente diminuto em relação ao lusófono (os chineses, mata duitan, estão a aprender português aos milhares, deve ser porque nele encontram alguma vantagem...).

E que as potencialidades económicas e de amplificação política da Indonésia são do tamanho do imenso arquipélago malaio (no qual geográfica mas não politicamente se insere a meia-ilha que é Timor-Leste).
.

6 comentários:

Anónimo disse...

Ita Boot Anónimo, Ksolok ho Ita nia liafuan hirak apelu nian. Hau hare liafuan naru-naruk Ita nian iha leten no hanoin iha liafuan barak nebe tebes no los. Maluk barak la hare karik tanba raan nakali hela. Raan nakali ba nai ulun ukun nain sira nebe hanoin deit ba sira an rasik. Ukun nain sira be matan naklosu uluk ba ida-idak nia fatin rasik, ida-idak nia kabun rasik, no riku soin oi-oin. Lian Portugal ka lian sá deit Ita Boot sira hatene momos ona katak Timoroan hili lalais tanba toman ona rona tuir lian ida ka liafuan ida Timoroan ne badinas hasara tuir lais los. Rona tuir hananu ruma ami hasara lais tuir-tuir. Rona tuir knanuk ka knanoik ruma ami bele hasora tur lais kedas. Dala barak ami hasara mai momos hanesan lolos ema seluk nian. Dala barak ami Timor koalia nabolok imi malae lian hanesan momos imi ka liu fali imi malae oan. Keta hakfodak ami balu halo an ne dala barak imi bele hare ami Portugês lia fali Portugaloan, English liu fali Inglesoan, Angolano liu fali Angolaoan, Indonesia liu fali Indoneziaoan. Brazil mos ami balu foti an no hatudu ami mos bele koalia nabolok hanesan lolos Braziloan halo ita hotu hamnasa kabun makili. Ne tuir lolos laos ami balu foti an maibe atu hanoin didiak ami barak kolonizadu resik liu nebe ami la hatene tan ami kolonizadu. Ami foinsae sira la moe koalia imi lian. Ne la susar boot ida. Atu koalia ka hananu ho imi lian ami la moe. Hodi ami lian Tetundehan karik, ne foti mak riba ba oin nafatin. La diak tebes bainhira ema ida hatún fali ema seluk nia lian ka adat ka kultura. Ida ne ema ruma hatún fali Timor nian, ami mos la simu. Ema nain hira ona iha Blog ne hatún duni Portugal lian nebe ita tomak hatene ne hahalok la diak. Hatudu fali ninia beik. Hatún nia an rasik. La hatene hatudu ninia matenek. Hatún fali Timoroan sira. La hanoin katak bainhira hatún ema seluk nia lian ka adat ka kultura ne hatún ona ema ida nia identidade. La diak mos du'u ba mai katak anglo-saxóniku mak iha kotuk. Ne hatudu katak ita la fiar iha ita an rasik. La diak sadik malu hanesan ne. Sadik malu nafatin ne hakaas balu-balu atu hili sorin. Ne laos dalan matenek nian ba ita tomak. Ita Boot nia liafuan iha leten hatudu lao sala dalan oinsa sistema hanorin lian Portugal nian iha ami rain tebes duni. Sala ida ne laos deit Portugaloan nian maibe sala boot hosi nai ulun ukun nain Timoroan sira nebe matan naklosu hakarak hetan buat hotu-hotu. Hakarak Portugal ho CPLP mai fo no hanorin imi lian maibe la hare didiak dalan oinsa no diak liu mak bele halao/implementa ida ne. Sala tan ami nia boot sira la tau matan ba foinsae sira, katuas, ferik no labarik sira. Sala boot tanba ami nia ukun nain sira hakarak hakaas (obriga) deit hotu-hotu simu. Hakarak ka lakohi, simu deit. Sala boot liu tan temi fila fila katak lian Portugal atu tulun Tetun maibe tuir ami nia boot sira dehan beibeik iha kotuk katak lian sira rasi-rasik iha Timor nian lalika haburas tan lian ida be koalia loron-loron nian. Fo atu ita bele hanoin katak ukun nain Timoroan sira moe sira nia lian ka moe sira nia identidade ka moe sira nia adat/kultura. Ami ne kolonizasaun ne too nebe los ami ladauk analiza lolos. Ita la hatene los. Bele karik biban too ona atu ukun nain sira labele tauk hamutuk ho Timor tomak husu fila fali ba ita ida-idak an rasik ba Timoroan tomak 'Ita sé? Ita nia identidade ne saida los? Ita hakarak lian sá los? no lubuk ida tan...' hodi bele hatene lolos Timoroan ne sé los no ninia neon aas (orgulhu) ne mai hosi nebe los? Obrigada.

Anónimo disse...

Caríssimo anónimo, o seu extenso mas interessantíssimo texto exala pertinência e coerência, pelo que não posso mais do que concordar, no cômputo geral. É difícil encontrar, em tão aceso debate, quem se reja pela frontalidade e pelo recurso a argumentos tendencialmente factuais, sem cair na tentação da falácia, da propaganda emocionada, da ironia camuflada, do logro ou dos argumentos de double-meaning (perdoe-me o anglicismo, por vezes é mais prático).
As elites por vezes vivem de costas voltadas para o povo e, se me é permitido, os jovens discriminados pelo uso indevido do português deveriam activamente chamar alguns katuas e malae à razão. E fazer prevalecer que, independentemente das competências linguísticas de cada um, os que estudaram por esse mundo fora devem poder colocar os seus conhecimentos à disposição do desenvolvimento de Timor-Leste. Por exemplo, se há documentos oficiais exclusivamente escritos em português, devem exigir uma cópia em tétum, se assim desejarem. Afinal, o tétum também é língua oficial de Timor-Leste. E aqui os vários esforços de disseminação do tétum nacional como padronizado pelo Instituto Nacional de Linguística têm falhado. Muitos timorenses não falam nem tampouco escrevem tétum nacional correctamente. A relação simbiótica com o português poderia ser reforçada (ensino simultâneo das duas línguas desde o pré-escolar, formações concedidas a jornalistas que escrevem autênticos atropelos e mesmo a governantes que se consideram timorenses mas cujo tétum deixa muito a desejar, massificar, massificar, massificar, jornais, rádio, televisão, etc…, nas duas línguas – e sem NUNCA deixar esquecer as restantes línguas nacionais, sob pena de se perder um património inigualável (o seu estudo e ensino não podem ser protelados). A poliglossia é uma riqueza de Timor e nenhuma, mas mesmo NENHUMA língua pode ser obliterada do seu horizonte sob pena de comprometer ireversivelmente o património de Timor-Leste. E essa é uma necessidade premente, essa sim, tem de ser imposta, porque os motivos que a subjazem são evidentes.
Discorrer sobre a identidade nacional de um país será também acompanhar o processo de formação de laços que unem as comunidades. Benedict Anderson e a sua teoria de comunidades imaginárias – provavelmente baseada no que observou na Indonésia – descreverão esses processos de forma mais correcta. Tratar-se-á de conhecer a História profundamente, os episódios que uniram o povo ou que derivaram em lutas fratricidas, a construção de uma identidade por oposição ao outro, o vizinho, o colonizador, o ocupante. Trata-se de olhar para o passado, mas também para o futuro: o que se pretende, que visão se tem. No plano da língua, dou dois exemplos: em Singapura – que ainda hoje se debate com questões identirárias – as elites escolheram ser um hub internacional de serviços e, para isso, escolheram o inglês; as elites das Seychelles escolheram ser uma economia turística, e escolheram (também) o francês porque lhes permitiria aprender outras línguas e acolher melhor um sem número de veraneantes de múltiplas nacionalidades. Há componentes económicas também por detrás dos processos identitários que englobam escolhas linguísticas e também questões relativas à homogeneidade cultural e linguística intrínseca dos países (e Timor, neste aspecto, não será o melhor exemplo) e questões geopolíticas. Portanto, há sempre escolhas a fazer, há sempre lados a eleger, posições a defender, a identidade é uma escolha. Mas os timorenses têm e terão capacidade para fazer as suas escolhas.
continua

Anónimo disse...

Os processos identitários são dinâmicos. Timor ainda está à procura da sua identidade nacional. E com a exiguidade geopolítica que lhe é característica, há muitas forças em contenda, o que é natural. No que concerne o debate da língua em Timor-Leste – que subitamente foi relançado de forma, digamos, bizarra - surgem, no entanto algumas questões:
Se as jovens gerações aparentam estar massivamente contra o português como língua oficial, porque é que dificilmente se expressam nestes fora os que estudaram na Indonésia e tendencialmente quem se dispõe a lançar o assunto novamente na praça pública, intitulando-se representante da geração jovem, são os que revelam particular fluência em inglês (e tendem a defender os seus argumentos precisamente nessa língua)?
Se a língua é essencialmente uma questão identitária, porque motivo os guerrilheiros de primeira água – como o extraordinário Xanana Gusmão – utilizaram a língua de Camões como instrumento de resistência contra o ocupante (quando seriam provavelmente os que teriam mais legitimidade para NÃO o fazer, uma vez que foram directamente subjugados pelo colonialismo português)?
Se o português é uma língua elitista por que é que, apesar de todos os problemas, há cada vez mais lusofalantes em Timor-Leste? Não será que a resistência ao português como língua oficial de Timor-Leste se confina também a uma elite, mas aquela que, por diversos motivos, continua obstinadamente a resistir à lusofonia e ao que supõe que ela implica?
Por último seria importante referir a dificuldade encontrada para perceber o texto em tétum que escreveu. Pensei que fosse da minha incompetência ou da meticulosa ausência de vocábulos de origem lusa, por isso decidi deixar que três timorenses o escrutinassem. Todos da geração jovem, educados no sistema indonésio (1 SMP, 2 com sarjana). Pensei que fosse minha ignorância, mas também eles tiveram extrema dificuldade em compreender a totalidade do conteúdo sem ler algumas passagens repetidamente. Algumas frases, quando traduzidas literalmente para inglês já faziam mais sentido. Fez-me lembrar o Noam Chomsky que, em 1976, descobriu que a Declaração de Balibó não tinha sido escrita por timorenses, colocando em causa o processo de integração sob iniciativa exclusivamente timorense. E lembrou-me também a figura do dalang do wayang javanês.
Cumprimentos
peço desculpa pela extensão

Anónimo disse...

Sou português e amigo de Timor há muitos, o que me ligou a Timor foi o facto de ter conhecido uma timorense no liceu e nos termos tornado amigos inseparáveis ao longo destes anos.

Apesar de Timor ter sido uma colonia portuguesa a geração pós 25 de Abril aprendeu pouco nas escolas sobre o que se passou em Timor e tenho que ser sincero eu descobri onde este país se situava no mapa, porque tive a honra de conhecer uma timorense que amava o seu país.

Para a maioria dos portugueses Timor foi esquecido e apenas voltou a ser notícia depois do Massacre de Santa Cruz onde assistimos o assassinato de centenas de jovens timorenses, ficamos chocados e Timor renasceu no coração dos portugueses, os nossos irmãos sofriam e nós tínhamo-nos esquecido deles por tantos anos.

Foram os timorenses quem nos acordaram para o sofrimento que estavam a ser sujeitos, que os portugueses se levantaram e se uniram para defenderem os seus irmãos isso é incontestável, na minha opinião não fizemos mais do que a nossa obrigação porque a descolonização de Timor foi a lástima que foi.

Continuo de certa maneira ligado a Timor e aos seus problemas através deste blogue que tem como membros dois grandes amigos meus.

Como português sinto-me indignado quando leio certos comentários que fazem em defesa da língua portuguesa venham eles de portugueses ou timorenses. Uma língua não se impõe a ninguém, temos que demonstrar com coerência as suas vantagens e dar a todos os cidadãos a oportunidade de a aprenderam e possivelmente a acarinharem. A minha amiga timorense é quem escreve e fala melhor o português dentro do nosso grupo de amigos, ela diz que é por ser timorense pois são um povo extremamente inteligente. Eu acredito nela.:)

Vi um comentário no Facebook que foi originalmente colocado neste blogue onde se pode ler o seguinte:

"Não querem aprender, não aprendam. Albarde-se o burro à vontade do dono. Entretenham-se a serem marionetes dos anglo-saxónicos que não querem mais que nos pôr a pata em cima e explorar as nossas riquezas. E já agora, ocupem o vosso tempo a atirar pedras, a rastejar na rua, não fazendo nada, e a vender cartões pulsa porque só assim são felizes. Inertes, mortiços, encostados. Eu, não!"
Como português sinto-me indignado com estas palavras porque o tópico abordado neste blogue foi a alegada discriminação sofrida por cidadãos timorenses por não falarem o português. E responder a jovens neste tom é apenas uma provocação, nada de bom poderá vir de quem profere estas palavras tão maliciosas.

São estes os embaixadores do Português em Timor? Sou português e não preciso destes excrementos para defenderem a minha língua.

A minha amiga ficou indignada e chamou sacana e arrogante ao autor deste comentário, com toda a razão. Como português também fiquei ofendido ao ver o modo como se atrevem a maltratar os jovens timorenses que sofreram e continuam a sofrer.

O Português poderá trazer vantagens a Timor mas para que se concretizem estas vantagens é necessário que o ensino desta língua esteja ao alcance de todos os timorenses.

Se o português tivesse sido progredido de uma forma justa e lata em Timor não estaríamos perante este problema.
Um grande abraço fraterno para todos vocês.
Gonçalo Esteves
PS: Nem todos os malais são sacanas e arrogantes, eu não sou. Tenho muito respeito pelo povo timorense. :)

Anónimo disse...

Ora nem mais, grande comentário!!! A parte de "Uma língua não se impõe a ninguém, temos que demonstrar com coerência as suas vantagens e dar a todos os cidadãos a oportunidade de a aprenderam e possivelmente a acarinharem" diz quase tudo!!! O português é a quinta materna mais falada em todo o mundo. É a mais falada no hemisfério Sul. O mercado da CPLP é o 6º a nível mundial. A última flor do Lácio, como lhe chamou Olavo Bilac, é também das mais universais, não pelo número de falantes, mas pela quantidade de estrangeirismos que incorpora (incluindo palavras malaias como pires e jangada), sinal do contacto humano sem o jugo de imposições. É uma língua que se adaptou a todos os lugares onde floresce, não pertence a nenhum povo em específioo. Estudada e analisada há 500 anos (quando surgiu a primeira gramática), é também das línguas latinas a que mais tipo de sons tem. Há quem lhe chame o Ferrari das línguas latinas, pois possui sons que as outras não têm (sendo por isso mais fácil a um lusófono expressar-se em espanhol, italiano e mesmo francês (e se calhar romeno).
Acho que isto também deveria ser divulgado em Timor-Leste, onde às vezes o português é maltratado (inclusivamente por portugueses...).

Anónimo disse...

Estou de acordo com um referendo sobre a língua em Timor-Leste no dia em que se fizer um referendo sobre a presença militar estrangeira em Timor-Leste - sobretudo quando se prevê que permaneça para além de 2012, sob moldes diferentes dos actuais - , sendo bem avaliado quanto dos dois fenómenos (a língua ou as armas)tem efeitos mais perniciosos na soberania timorense.