Díli, 18 abr (Lusa) -- O Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, disse hoje que o Governo de Sócrates foi vítima dos "abutres" das empresas de rating, que especulam com a situação portuguesa, mas não dão notação B aos Estados Unidos, que têm um défice "assustador".
"Do que eu tenho analisado ao longo dos meses, é óbvio que o atual governo de José Sócrates fez esforços enormes. São as agências de rating que manipulam, deliberadamente ou por pura ignorância, os mercados e levam a países que se têm de financiar nos mercados internacionais, como Portugal, a pagar juros excessivamente elevados, o que é totalmente inaceitável", sustentou o Presidente timorense.
"São as tais que não conseguiram ou não quiseram alertar os investidores para as falcatruas que se fizeram em Wall Street e em várias agências de investimento e bancos americanos, e para investimentos imobiliários especulativos, nos EUA, em Inglaterra, no Dubai. Por isso não têm credibilidade", disse, numa entrevista conjunta à Lusa e RTP em Díli.
Ramos-Horta considera "estranho" que as agências de rating "não falem na economia italiana, muito mais endividada do que a portuguesa, ou mesmo dos EUA".
O défice americano "é assustador", considerou. "Se por hipótese a China retirar de lá os seus investimentos, os Estados Unidos poderão pagar? Creio que não. Os chineses sabem-no e isso provocaria uma debandada em relação ao dólar, que não interessa a ninguém, muito menos a Timor-Leste que já está a sofrer desde há três anos com a depreciação do dólar que ocorre precisamente devido ao défice americano. Mas não vemos as agências de rating a dar notação B aos Estados Unidos...", comentou.
Segundo o Presidente timorense, "obviamente que nem tudo está bem em Portugal, mas o que está mal tem vindo a ser corrigido".
Portugal, prosseguiu, "tem estado na vanguarda de tecnologias inovadoras como as telecomunicações ou as energias alternativas e as exportações têm aumentado, ao mesmo tempo que tem tentado fazer reformas e procurado reduzir o défice, mas tudo isso leva tempo".
José Ramos-Horta afirma-se "indignado por Portugal ter de vender a sua dívida a sete, oito ou dez por cento" e diz que "é preciso que algumas vozes se levantem".
"É fácil, mas creio que é injusto, criticar simplesmente a classe política portuguesa e o próprio Governo. Os portugueses que são críticos têm todo o direito de o fazer, mas vendo desapaixonadamente, por quem está de fora, creio não haver razão para se chegar onde se chegou".
A intervenção do FMI em Portugal não recolhe o aplauso do Chefe de Estado timorense.
"Não simpatizo com o FMI. Só simpatizei com eles em 1999 quando, por causa da receita do FMI, o regime indonésio de Shuarto caiu. A Indonésia cedeu às pressões do FMI, houve centenas de milhares de pessoas nas ruas e o ditador caiu. Fora isso, onde o FMI impôs as suas prescrições, como em África nos anos 80, houve impactos sociais gravosos", comentou.
José Ramos-Horta sugere uma operação financeira concertada entre Timor-Leste, Angola e Brasil, para a compra de dívida portuguesa por negociação direta com Portugal, no âmbito da CPLP, para "moralizar os mercados".
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