Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

O QUE NASCE TORTO, TARDE OU NUNCA SE ENDIREITA

.
POR ANTÓNIO VERÍSSIMO

Uma menina de 9 anos faleceu por falta de complementaridade indispensável na assistência médica. Uma simples cirurgia ter-lhe-ia salvado a vida. Como ela, muitas outras crianças e adultos timorense já faleceram e muitos outros vão falecer se os responsáveis políticos timorenses nada fizerem.

A notícia, segundo consegui apurar, teve base na página online da Clinic Bairo Pite e teve sequência no TLN diário, depois aqui no Timor Hau Nian Doben, só então saltou para os jornais australianos. Procuro informar com rigor. O certo é que no SAPO TL e nos jornais portugueses nem sombras da notícia. Evidentemente que é má propaganda. E isso não é coisa que os escribas portugueses avancem a noticiar. Sobre Timor, sobre Angola, sobre certas “sensibilidades”, arrenegam. Preferem aguardar e só depois de o assunto não esfriar e se manter em manchetes é que lhe dedicam uma lauda ou duas. E é se for. Se esfriar melhor ainda, não abordam.

Se acaso Ila fosse uma criança que por “milagre” tivesse sido benzida por um bispo timorense qualquer e tivesse escapado à morte seria uma enorme notícia. Bispo “milagroso” salva criança, daria título. Fosse ele pedófilo ou não. Se acaso o PR Horta ou o governo AMP-Gusmão se tivessem interessado pelo caso, também não faltaria publicidade à moda da Voz do Dono. Assim, como se estiveram borrifando. Como se estão borrifando para a falta de cuidados de saúde de que padecem os timorenses, consideram que o melhor é assobiar para o lado e fazer de conta que não aconteceu nada. O caminho é pela positiva deles e pela manutenção dos que estão nos poderes. Dos fracassos, das carências, das incompetências, das irresponsabilidades, dos crimes, dos roubos, das falcatruas, consideram que o melhor é assumir uma postura de cegos, surdos e mudos. Falta saber se é por razões de manterem os empregos de escribas ou se é “distração” e vontade própria. Quer parecer que é simplesmente por já estarem domados e considerarem que não se morde na mão de quem lhes dá a comidinha. Sejam as chefias e administrações possessas, violadoras da liberdade de expressão e de informação ou não. O que importa é o dinheirinho ao fim do mês e a consciência pesada – se ainda tiverem - bem paga, para ficar tranquila.

Porque este é o procedimento normal e natural da comunicação social de Portugal relativamente ao que acontece em Timor Leste, Angola e etc., salvo raras e honrosas excepções, porque os grandes grupos económicos que se apoderaram de tudo e de todos, apostam nos produtos brancos na informação e na sua uniformização, já agora podiam arranjar uma fatiota uniformizada para os obedientes, atentos, venerandos, invertebrados e agradecidos profissionais. Eles poupavam na roupinha e faziam o favor de nos mostrar pela fardeta quem é quem do seguidismo da Voz do Dono. Jornalistas não são, com toda a certeza. Daquela raça vimos bastantes em Portugal e nas ex-colónias até ao 25 de Abril de 1974. Os cidadãos mais antigos e idosos, vividos nessa experiência, ainda os conseguem cheirar à distância. Estejam eles na Lusa, no SAPO, na RTP ou onde melhor acharem acoitar-se. Como portugueses só podemos sentir vergonha e esperar por melhores dias e melhor informação. Este parágrafo é longo mas importa deixar aqui os pontos nos is, porque mesmo sem as tais farditas vamos percebendo quem é quem. E não, jornalistas não são. Ainda bem!

Evidentemente que é manifesta realidade que o governo timorense e a presidência da República se estão marimbando para crianças às portas da morte que se viajassem ao estrangeiro e recebessem cuidados médicos que em Timor lhes são negados continuariam a viver. Que se lhes dessem a atenção e oportunidades devidas, coisa que lhes pertence dar por dever dos cargos que juraram cumprir constitucionalmente, sobreviveriam e seriam cidadãos válidos e decerto reconhecidos. Evidentemente que Ramos Horta nem sabia do caso… Timor Leste é enorme. Evidentemente que Gusmão também desconhecia… Timor é ainda muito mais enorme. Evidentemente que o médico Dan Murphy tentou tudo mas não pediu a intervenção do governo timorense ou os bons ofícios do excepcional bom samaritano Ramos Horta. Ele não menciona isso… Decerto pensou que superaria as dificuldades e que a humanidade não iria deixar falecer aquela menina, Ila Amaral. Enganou-se. Ele, que conhece as enormes carências de saúde existentes em Timor Leste e que incansavelmente as tenta superar – contando bastantes êxitos – decerto que se encontra absolutamente frustrado e indignado com o que aconteceu. Enquanto isso, o PR timorense continua nas suas dispendiosas e demoradas passeatas ao estrangeiro com comitivas que metem medo ao susto. Esbanja à força toda. Oferece milhões à igreja católica timorense para arranjar paredes de igrejas e o que mais não fazemos ideia, porque dos eclesiásticos é sempre de desconfiar depois de ler certos autores portugueses e assistirmos às suas criminosas cedências aos cifrões e aos apelos da “carne”…

Pior, muito pior que o PR, as responsabilidades vão direitinhas para o governo AMP-Gusmão. Os paladinos do desenvolvimento deixam o país chegar ao ponto de não prestar os cuidados de saúde necessários aos seus cidadãos e continuam felizes da vida como se nada de errado vá acontecendo. Continuam a desbaratar milhões em negociatas com filhos, filhas, sobrinhos, primos, primas, amigos, etc., em contratos de empreitadas dúbias nas suas execuções ou de fornecimentos de bens alimentares que logo à partida são negócios de alta vantagem que só numa república do banana tem aquele formato.

O que se pergunta é porque razão não existe um acordo do estado timorense com outros países e entidades para que os tratamentos e intervenções cirúrgicas que Timor Leste não possa facultar aos seus cidadãos sejam por eles prestados em tempo útil? Em tempos algo do género havia com a Indonésia. E agora acabou? Recordo de me ter apercebido que Fernando Lasama Araújo um dia se pronunciou desfavoravelmente à assistência médica no estrangeiro e creio não estar induzido em erro. Houve ou não cortes orçamentais neste sentido? Algo houve que limitou tratamentos no estrangeiro por falta de condições em Timor Leste.

O caso desta menina é de um final bastante triste e de grande motivo de indignação. Para mais porque tudo se conjugou para ignorarem a criança e proporcionarem-lhe a única saída possível: a morte. O navio hospital da propaganda norte-americana, que até é útil e se deseja que dupliquem ou tripliquem, o Mercy, também recusou a cedência de sala de operações para a Ila. Decerto que estavam com todo o programa de intervenções preenchido. Nem dá para imaginar o contrário.

Assim, porque tudo estava a falhar, qual deveria ser o procedimento dos responsáveis de saúde timorenses? Só havia um. Fosse a Ila atendida onde fosse, longe ou perto, deveria entrar num avião acompanhada por um familiar e o médico que a assistia e voar para uma sala de operações que a salvasse. Quanto custava? Acaso Gusmão ou Horta se preocupam com essas ninharias quando esbanjam? Acaso se fosse um dos seus filhos ou outra criança sua familiar a quantia a gastar, mais ou menos elevada, seria motivo para a deixar falecer? Quantas crianças timorenses já faleceram nestas circunstâncias? E quantos adultos? Quantos mais vão falecer?

Podemos ler no The Age, jornal australiano, que “Dan Murphy, o médico que dirige uma clínica para os pobres, em Díli, tentou convencer hospitais australianos a aceitar Ila Amaral para a cirurgia, a fim de corrigir a sua válvula mitral no coração defeituoso.” E também que ele se culpa.
“Eu culpo-me primeiro - eu fui incapaz de encontrar as palavras correctas para fazer mover as coisas para ela”, disse o dr. Murphy da Clínic Bairo Pite, onde morreu quatro dias atrás.”

A dor e a frustração leva o médico a inculpar-se. Coisa que não deve. Senão vejamos alguns dos itens citados no The Age:

“O Dr. Murphy perguntou à Marinha dos EUA sobre o uso de uma das 12 salas de cirurgia em seu navio-hospital Mercy, quando aportou em Dili…”

“Depois de ter sido incapaz de obter um hospital na Austrália que aceitasse Ila, o Dr. Murphy apelou a hospitais nos EUA e, em seguida, a um pequeno hospital de doenças cardíacas que está abrindo no Vietname…”

“Respondendo à divulgação no The Age do caso de Ila, os leitores daquele jornal ajudaram a reunir mais de 30 mil dólares para trazer a menina para Melbourne para ser operada…”

“O dinheiro estava disponível através da organização Rotary Romac para Ila viajar para a Austrália, mas o Dr. Murphy disse que apesar do intenso esforço para encontrar um hospital que a aceitasse tal não foi possível.”

Dan Murphy fez tudo o que lhe foi humanamente possível. Afinal havia tudo. Até médicos cirurgiões a servir “pró bono”. Basta ler no The Age. Só fazia falta uma sala de operações apropriada para a intervenção cirúrgica ao coração de Ila. Inexistente em Timor. E é aqui que a porca volta a torcer o rabo e vamos de encontro às incompetências governamentais de Gusmão.

Um cidadão em perfeito juízo não pode acreditar que em todo o mundo não existisse uma sala de operações para intervir no coração de Ila. Timor Leste devia de ter protocolos com outros países nesse sentido e em todos as especialidades em que tem carências, com prioridade nos casos mesmo graves ou com tendência a agravarem-se e fazerem perigar a vida dos cidadãos. Vimos então que na impossibilidade de não existirem salas de operações adequadas no país ao menos devem de cuidar obtê-las, de as construírem e equiparem de raiz ou o que mais e melhores decisões servirem. Até porque em cardiologia existem imensos casos no país.

Como podemos aperceber-nos no The Age “mais de 300 crianças em Timor Leste necessitam de tratamento cardíaco. Estamos estudando a possibilidade de criação de unidades especializadas em Timor Leste, no presente de modo algum Ila poderia ser lá tratada.”

Então e essas preocupações e acções para colmatar a falha não competem ao governo? Não compete ao PR, Ramos Horta, ter conhecimento da situação e recomendar ao PM que passe à resolução urgente e adequada dos problemas que afetam os cidadãos timorenses? E isso não devia de ter sido já feito? Ou passam a vida a esbanjar e à espera que sejam os outros países e boas almas, como Dan Murphy, a resolver os problemas? Esperam que sejam os leitores dos jornais de todo o mundo a custearem cuidados de saúde aos timorenses apesar de no país desaparecerem milhões sem se saber como nem porquê? Isso tem nomes muito feios: chulos, penduras, oportunistas…

Não é Ramos Horta que fala “lá de cima” afirmando que compra divida portuguesa? E não foi agora que doaram uma pipa de dólares à Austrália? E não doaram a Cuba? E à Madeira? E a… Fica-lhes muito bem esses sentimentos mas então não doem e não peçam. Usem o que têm (e não é pouco) em prol do bem-estar dos timorenses. Acabem com a corrupção, conluio e nepotismo que têm feito crescer (KKN). Também a atitude de estarem constantemente a pedinchar deve de acabar. O mundo merece tomar conhecimento da realidade timorense e que se podem esbanjar de modo inconcebível é porque não precisam de ajudas tão elevadas como as que ainda agora beneficiam. Acabou. Não se justifica. Apoios de todo o tipo que importa proporcionar, muito bem, deve acontecer e com a melhor das solidariedades; mas os milhões e milhões que os doadores alegam gastar, já não se justificam. Até porque a maior parte dessas doações perdem-se nas burocracias e nos “abusos”.

Resta salientar que há mais de 300 crianças em Timor Leste que necessitam de tratamento do foro cardíaco. O que vai acontecer? Vamos ver mais crianças morrerem? Ou vamos ver algum dos responsáveis dar um murro na mesa e impor uma política de saúde adequada às circunstâncias? Afinal, por muita prosa que aqui conste que pareça fel não o é. É sim relatos e considerações sobre as realidades puras e duras num país que parece querer cumprir o adágio tenebroso de que “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Não é isso que deve acontecer. Por favor.

Links relacionados:

http://bairopiteclinic.org/

http://www.theage.com.au/national/timorese-girl-9-dies-as-doctor-pleads-for-help-20110117-19u14.html
.

0 comentários: