Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

TIMOR E A DÍVIDA

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Ângelo Correia

Por Ângelo Correia, Gestor - CORREIO DA MANHÃ

O novo ‘Velho do Restelo’ diria onde chegámos nós! O espectador normal apenas constatará que o mundo é outro!

Aquando da peregrinação do Engº Pinto de Sousa a terras do Oriente, recebeu-se a notícia que o Governo de Timor ia apoiar financeiramente Portugal. Desde a compra de parte da nossa dívida pública, à participação directa no capital de alguns "campeões nacionais", Timor decide dar-nos a mão.

A minha primeira reacção foi a de não saber se devia rir, se devia chorar. Rir pela alegria de ver a pujança de um ainda recente Estado já poder exibir uma acção de solidariedade. Chorar por ver o ponto a que Portugal chegou. Há cerca de 10 anos, Timor-Leste adquiria a sua independência sob um conjunto de cinzas e destruição. A partir dessa altura, e pela responsabilidade que Portugal contraiu em consequência do legado post-1975, apoiámos política e materialmente aquele novo Estado.

Professores, assistência técnica, financeira, segurança foram algumas das várias áreas onde tal se processou. Hoje a situação parecer inverter-se. De apoiantes passamos a apoiados. É certo que Timor procura rentabilizar os seus fundos aplicando-os onde pode ganhar, e isso é louvável, e tanto pode ser operado em Portugal, como na Austrália ou em Wall Street. Mas, fá-lo em Portugal. A esse propósito não é ele o único Estado da lusofonia que procede desse modo. Angola iniciou tal política, com aplicações na Galp, no Millennium BCP, BPI etc.

Tenho visto preocupação em alguns sectores por tal política, invocando o risco de neo-colonização pelos ex-colonizados. Tal argumento é injusto e inadequado. O trânsito comercial, financeiro e de investimentos entre Portugal e as suas ex-colónias deve ser uma "estrada com dois sentidos" e a legitimidade é igual para todos os intervenientes. Aliás, se Portugal quer e precisa de investir e trabalhar em Angola ou Timor, razão análoga deve presidir à acção desses Estados. Estamos num mundo global onde promover redes entre parceiros que criam novas oportunidades é um excelente critério de acção. Devemos por isso saudar esses investimentos e apoiá--los, na exacta medida em que também devemos esperar igual tratamento aos nossos investimentos nesses Estados.

Mas não podemos esconder a situação em que estamos hoje; a nossa capacidade actual não é a de investir no exterior mas dele receber apoios e projectos. Somos hoje mais dependentes do mundo e também por isso de nós próprios. Há 500 anos partimos de caravela e sem saber se voltávamos. Hoje recebemos as caravelas que regressam com os descendentes dos que lá fomos encontrar. O novo ‘Velho do Restelo’ diria onde chegámos nós! O político desesperado por colocar a dívida pública no mercado discorrerá sobre a excelência e oportunidade desse regresso. O espectador normal apenas constatará que o mundo é outro!
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