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03 de Novembro de 2010 - sapo.tl
O dia dos defuntos é preparado meticulosamente nos lares timorenses, uma ocasião para a família alargada se reunir numa boda, em que participam também simbolicamente os antepassados.
A tradição, que se altera, conforme o grupo étnico e mesmo de família para família, tem como denominador comum a oferta de alimentos e outros bens aos espíritos dos ancestrais, e só depois destes "se servirem" é que os parentes vivos se sentam à mesa.
Josefina Reis é uma das muitas timorenses que vive e trabalha em Díli, mas que parte para o seu distrito para as celebrações, na localidade de Maubisse, obrigada pelo sentimento de pertença à comunidade de origem. "Preparamos flores, velas e comidas para fazer a cerimónia dos defuntos", explica.
Quando os alimentos estão cozinhados, colocam-se numa mesinha, com flores, velas, fotografia dos defuntos, vinho, cigarros, arreca (nozes-da-Índia) e betel (planta aromática de mascar).
"E só 12 horas depois é que se tiram as comidas, bebidas e cigarros da mesa, altura em que os vivos podem comer, porque os defuntos já se serviram e estão connosco", descreve.
Tal como Josefina, a maioria dos moradores de Díli partem para os distritos, mas também há quem reproduza na capital práticas seculares do culto pelos mortos.
Por uma estreita viela, entre as lojas do movimentado bairro do Audien, penetramos na intimidade desses momentos sagrados vividos em Díli.
Do interior sai a luz ténue de velas acesas e o monocórdico sussurro de orações, a leitura do terço em tétum. É ali a casa de Júlio Martins Ribeiro, que nos convida a entrar, desculpando-se da modéstia dos aposentos.
Frente à porta, o oratório com a cruz de Cristo e a imagem de Nossa Senhora. Nas paredes, misturam-se panos com "posters" de ídolos do futebol português (lá está o Ronaldo) e estrelas da música indonésia, mas também uma bandeira de Timor-Leste a testemunhar o patriotismo.
Ao centro da sala, a mesa principal está enfeitada com flores e pequenos pratos de doçaria, refrigerantes, vinho, bolachas e duas velas A um canto, outra mesa mais pequena suporta as panelas da carne, sobretudo galinha.
É também aí que estão pendurados os retratos de família, entre os quais figuram parentes já falecidos.
Sentada no chão, a anciã da casa, Madalena dos Santos, cuja idade o filho desconhece, junta flores coloridas em pequenos ramos harmoniosos, destinados ao enfeite das sepulturas.
Júlio apresenta cada elemento da família e vai explicando, em português, os rituais. As ofertas de vinho, bolachas e outros produtos expostos são para o seu pai, avô, tios, e demais falecidos.
"É um momento de reflexão. Pedem-se desculpas por desentendimentos, faz-se a reconciliação, procura-se a paz nas consciências e fazemos as nossas orações. É só isso!".
À pessoa mais velha cabe dirigir a oração e fazer as evocações do universo complexo dos laços familiares, nomeando todos os espíritos que ali devem estar presentes.
Por 12 horas, a mesa fica posta para os antepassados, servindo-se os vivos no dia seguinte, em confraternização familiar, após a missa e a romagem ao cemitério, onde de acendem velas e se distribuem pelas sepulturas as flores, preparadas na véspera.
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03 de Novembro de 2010 - sapo.tl
O dia dos defuntos é preparado meticulosamente nos lares timorenses, uma ocasião para a família alargada se reunir numa boda, em que participam também simbolicamente os antepassados.
A tradição, que se altera, conforme o grupo étnico e mesmo de família para família, tem como denominador comum a oferta de alimentos e outros bens aos espíritos dos ancestrais, e só depois destes "se servirem" é que os parentes vivos se sentam à mesa.
Josefina Reis é uma das muitas timorenses que vive e trabalha em Díli, mas que parte para o seu distrito para as celebrações, na localidade de Maubisse, obrigada pelo sentimento de pertença à comunidade de origem. "Preparamos flores, velas e comidas para fazer a cerimónia dos defuntos", explica.
Quando os alimentos estão cozinhados, colocam-se numa mesinha, com flores, velas, fotografia dos defuntos, vinho, cigarros, arreca (nozes-da-Índia) e betel (planta aromática de mascar).
"E só 12 horas depois é que se tiram as comidas, bebidas e cigarros da mesa, altura em que os vivos podem comer, porque os defuntos já se serviram e estão connosco", descreve.
Tal como Josefina, a maioria dos moradores de Díli partem para os distritos, mas também há quem reproduza na capital práticas seculares do culto pelos mortos.
Por uma estreita viela, entre as lojas do movimentado bairro do Audien, penetramos na intimidade desses momentos sagrados vividos em Díli.
Do interior sai a luz ténue de velas acesas e o monocórdico sussurro de orações, a leitura do terço em tétum. É ali a casa de Júlio Martins Ribeiro, que nos convida a entrar, desculpando-se da modéstia dos aposentos.
Frente à porta, o oratório com a cruz de Cristo e a imagem de Nossa Senhora. Nas paredes, misturam-se panos com "posters" de ídolos do futebol português (lá está o Ronaldo) e estrelas da música indonésia, mas também uma bandeira de Timor-Leste a testemunhar o patriotismo.
Ao centro da sala, a mesa principal está enfeitada com flores e pequenos pratos de doçaria, refrigerantes, vinho, bolachas e duas velas A um canto, outra mesa mais pequena suporta as panelas da carne, sobretudo galinha.
É também aí que estão pendurados os retratos de família, entre os quais figuram parentes já falecidos.
Sentada no chão, a anciã da casa, Madalena dos Santos, cuja idade o filho desconhece, junta flores coloridas em pequenos ramos harmoniosos, destinados ao enfeite das sepulturas.
Júlio apresenta cada elemento da família e vai explicando, em português, os rituais. As ofertas de vinho, bolachas e outros produtos expostos são para o seu pai, avô, tios, e demais falecidos.
"É um momento de reflexão. Pedem-se desculpas por desentendimentos, faz-se a reconciliação, procura-se a paz nas consciências e fazemos as nossas orações. É só isso!".
À pessoa mais velha cabe dirigir a oração e fazer as evocações do universo complexo dos laços familiares, nomeando todos os espíritos que ali devem estar presentes.
Por 12 horas, a mesa fica posta para os antepassados, servindo-se os vivos no dia seguinte, em confraternização familiar, após a missa e a romagem ao cemitério, onde de acendem velas e se distribuem pelas sepulturas as flores, preparadas na véspera.
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