Sábado, 2 de Outubro de 2010

Q & R : PRESIDENTE DE TIMOR LESTE RESPONDE SOBRE A POBREZA, CORRUPÇÃO E PERDÃO

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Reuters AlertNet - Por Thin Lei Win - 01 de outubro de 2010 - Tradução de ZIZI TIMOR OAN

DÍLI (AlertNet) - Oito anos depois de Timor Leste se ter tornado na mais jovem nação do mundo, o seu presidente, José Ramos-Horta, enfrenta muitos obstáculos enquanto ele conduz o pequeno país do Sudeste Asiático para longe do seu caminho violento e conturbado.

O país de um milhão de pessoas, que votou pela independência da Indonésia em 1999, ainda é frágil. É uma das nações mais pobres da Ásia, apesar de ser rico em recursos energéticos como o gás natural.

Não há nenhuma indústria e as infraestruturas do país ainda são escassas, depois de muito ter sido destruído, numa reação violenta à votação em 1999 pelas milícias pró - Jacarta. O desemprego é elevado, e muitas pessoas não têm o suficiente para comer e o governo tem sido acusado constantemente de corrupção.

Numa entrevista com o AlertNet, Ramos-Horta, que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1996pela sua campanha contra o domínio indonésio, discute os avanços alcançados e os desafios futuros.

Q: O que é que Timor Leste alcançou nos últimos oito anos?

R: Fizemos um enorme progresso. Quando eu aqui voltei (em 1999), após 24 anos no exílio, Díli lembrou-me as fotos a preto e branco de Dresden após o bombardeio dos aliados. Lembrou-me Hiroshima e Nagasáqui. O país foi completamente destruído.

Mas as primeiras vítimas são as pessoas... traumatizadas por gerações de guerra e violência. Não havia uma administração. Nenhuma economia. Centenas de milhares de pessoas foram desalojadas.

Isso foi apenas há dez anos. Fizemos um enorme progresso na cura das feridas do povo. Você não tem visto, desde 1999, uma única pessoa que no passado pertenceu ao grupo pró - Indonésia que tenha sido assassinado por vingança. Ainda temos milhares de indonésios que continuam a viver aqui.

Fizemos uma separação muito rigorosa sobre quem é responsável e quem não é. Isso, em si, é o maior progresso para mim. As pessoas podem falar sobre o PIB, do rendimento per capita e assim por diante, mas o mais importante é curar as feridas, a reconciliação e o perdão.

Além disso, as estatísticas atuais que saíram no final de outubro mostram que, nos últimos dois ou três anos, a pobreza foi reduzida nove por cento. A mortalidade infantil, a mortalidade à nascença da criança foi reduzida de 30 para 50 por cento.

Temos expandido o programa de alimentação escolar - agora todas as escolas do país têm uma refeição quente por criança, e isso significa 400 mil crianças.

Nós não resolvemos todos os problemas. Nós ainda temos uma pobreza galopante. Nós ainda temos um número elevado de analfabetismo. Mas, novamente, apenas temos oito anos de idade.

Q: Como é que você planeja combater a pobreza, os problemas alimentares e o desemprego, que é frequentemente citado como sendo de 40 por cento?

R: A taxa de desemprego é atualmente não mais de 11%, como revelam os dados. Ainda elevada, mas desceu de um máximo anterior de 20%. Nunca foi de 40 ou 50 ou 90 por cento. Muitos, muitos milhares de empregos são criados pelo governo, por meio de dinheiro por trabalho, o investimento na agricultura, infraestruturas e aquilo que tenho defendido, transferências de dinheiro para os pobres.

O meu argumento foi muito simples. Que não é decente manter esse dinheiro (as royalties do petróleo e da produção de gás no valor de $ 5 bilhões) escondidos em Nova Iorque, em títulos do tesouro dos EUA, enquanto o valor do dólar está a ser desvalorizado, enquanto a economia americana está a afundar-se e o nosso povo está a morrer de fome.

Assim, todas as pessoas idosas no país com mais de 60 anos de idade terão direito a uma transferência monetária no valor de US $ 30 por mês.

Houve um maior investimento no setor agrícola - a produção de alimentos subiu 30 por cento no ano passado, mas a agricultura está dependente de Deus. Se Deus faz mal os cálculos e envia mais chuva ou menos chuva, nenhuma quantidade de investimento que você faz na agricultura poderá sobreviver.

Fizemos mais investimentos na saúde e na educação, mas nós não temos salas de aulas suficientes e também temos falta de professores de qualidade. É uma tarefa monumental. É o que você não pode explicar em dentadas ou num parágrafo de uma história.

Q: Qual é a sua resposta às denúncias de corrupção no Governo?

R: Eu reconheço que falaram sobre a corrupção, má gestão, mas para dizer que este é um grande obstáculo para o desenvolvimento do país, isto é um clichê.

Se você examinar o orçamento e a sua execução e a forma como nosso sistema financeiro está estabelecido, não é assim tão fácil para as pessoas fugirem com o dinheiro. Se o dinheiro não é gasto, ele permanece no Tesouro.

O problema com Timor Leste é que temos uma capacidade de entrega muito fraca - há uma abundância de dinheiro disponível para o ministério das Infraestruturas para a construção de estradas que são necessárias. Mas você tem que ter grandes e eficientes engenheiros, profissionais de obras públicas, arquitetos, planejadores e designers.

Eles não têm o pessoal. E como é que você pode exigir que eles tenham o pessoal? Este é um país com oito anos de idade.

Então, vamos voltar para a comunidade internacional, que alegou ter gasto tanto dinheiro na capacitação... centenas de milhões de dólares. Com essa quantidade de dinheiro, ou somos o povo mais estúpido do mundo, e eles mandaram as pessoas mais estúpidas para nos ensinar, ou pior, uma combinação de ambos.

Q: Qual é o montante de ajuda que Timor Leste recebe anualmente e quanto fica no país?

R: É estimado que, com base nos valores nominais do dinheiro da ajuda - e eu enfatizo os valores nominais - Timor-Leste tem a maior percentagem per capita, como destinatário de dinheiro da ajuda. Algo como US $ 200 por pessoa, contra algo como 12 dólares para o Afeganistão, por exemplo. Então per capita, Timor Leste é o mais alto destinatário e, se este vier a ser convertido em dinheiro real para ajudar realmente as pessoas pobres, Timor Leste seria hoje como Abu Dhabi ou Bahamas.

Geralmente, a estimativa varia entre cerca de 10 a 30 por cento do dinheiro atribuído pelos países doadores que fica no país beneficiário. O pior é que 10 por cento, que pode ser um exagero, mas eu diria que 30-50 por cento é o que é gasto no país. Em média você poderia dizer com segurança que 50 por cento é utilizado em outros lugares, como nos consultores, nas suas viagens, escreverem os relatórios, os estudos - numerosos estudos que fazem. E isso não é a denúncia de Timor sozinho. É uma denúncia do Afeganistão e de vários países Africanos. Os críticos foram lá, muitos livros foram escritos sobre ele.

No caso de Timor-Leste, é cerca de 30 por cento o dinheiro de ajuda que realmente é usado em Timor Leste.

Q: Você já enfatizou a necessidade de reconciliação e rejeitou convites à apresentação de um tribunal internacional. E então a justiça para as pessoas que foram mortas na luta pela independência?

R: Eu falo por experiência pessoal. A minha família perdeu três irmãos e uma irmã. Apenas algumas semanas atrás, fui para uma área remota de Timor Leste, seguindo uma pista de algumas pessoas do local, para tentar identificar onde o meu irmão tinha sido baleado a sangue frio pelas tropas indonésias. Nós ainda não o encontramos.

Então, eu sei o que é. Eu não faço parte da comunidade de ONG's internacionais que falam sobre a justiça em Washington e Londres, sem eles próprios terem vivido tal tragédia.

Para acompanhar o jargão da ONU e da Amnistia Internacional que temos de processar os responsáveis, eu pergunto, por que é que a ONU não fez isso? Foi a ONU quem administrou Timor entre 1999-2002. Por que não criaram um tribunal internacional?

Naquela altura eles nunca falaram sobre isso. No momento em que eles empacotaram e deixaram a responsabilidade sobre Timor Leste começarem então a falar sobre a justiça e do tribunal internacional.

Q: Onde você gostaria de ver Timor Leste daqui a dez anos?

R: Eu gostaria de ver a paz consolidada. Nós já estamos em paz, mas ainda não está consolidada. As instituições são ainda frágeis, como o exército e a polícia.

Precisamos de gastar mais com os pobres, para alimentá-los, na juventude, para educá-los, dar-lhes a oportunidade de que eles não tiveram até agora, temos de investir mais na agricultura para que o país seja completamente independente.

Em dez anos, você irá ver eliminado o analfabetismo, a pobreza extrema irá acabar, todas as aldeias em Timor terão eletricidade, quer da rede ou de energia solar ou eólica ou outras através de fontes renováveis. Não é irreal. Temos financiamento e nós possuímos pessoas muito criativas e resilientes.
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4 comentários:

Anónimo disse...

O PR está a falar como se vivesse num outro planeta! A vida das pessoas nada muda!

Anónimo disse...

O governo prometeu ao eleitorado de que até ao fim do ano transato, eles iriam ter eletricidade em suas casas. Mas até hoje nem e eletricidade na capital funciona!

Anónimo disse...

Nos meados de 1975 um bando de seminaristas, liderado por o então irmão Cornélio Cruz fazia um ‘tour’ por Timor. Um dos membros daquele bando era um puto que chamava Zacarias da Costa. Entre outras canções que cantavam tinha a lírica que se segue: Uma mosca sem valor, poisou-se com a legria na careca de um doutor...

Anos mais tarde aquele puto veio a ser o Ministro dos Negócios Estrangeiros num governo de facto de um país independente que se chama Timor-Leste. Outrora, estes putos diziam de que Timor-Leste só conseguiria a sua independência quando as galinhas tiverem dentes. Entretanto, a determinação da Fretilin e do povo Maubere guiados pelo lema de a “Pátria ou Morte! Venceremos! a independência foi possivel!

Hoje em dia, dos que perderam a esperança e que pouco ou quase nada confiaram no Povo Maubere gozam de um certo poder, como nos casos do Zacarias da Costa e demais. Mas isso é menos importante! O importante é que eles contribuam para o desenvolvimento do país. Mas seria ainda melhor se estes tivessem um espírito de nacionalismo, honestidade e servidão aos que sacrificaram para a nação. Pelo contrário, são desonestos para com o seu povo.

Tantas promessas fizeram a este povo faminto, pobre que vive debaixo de linha de pobreza, de que iriam mudar as suas vidas se ganharem as eleições. Prometiam ao povo de que eles iriam mudar tudo e que iriam fazer melhor daquilo que a Fretilin tem feito até as últimas eleições gerais e presidenciais. Prometiam de que fariam isto, fariam aquilo para que o povo usufrui-se da riqueza de que se dispõe.

Logo após as eleições terem ganho o governo de facto quadriplicou o orçamento do Estado. O povo continua a não usufruir de nada. Antes pelo contrário ministros ministros dos partidos eleitos, são os que usufruiem. São os seus familiares e amigos que se enriquecem de dia para dia. Entretanto a vida daquele povo continua ou pior como na era do governo da Fretilin. Nas cabeças dos ministros dos goervo de facto poisam moscas de corrupcão, nepotismo e conluio! Mas ao povo: A MOSCA MUDA MAS A MERDA NÃO VARIA.

Anónimo disse...

"Unemployment now is no more than 11 percent, the data shows."
Horta must be in dreamland! At least 40% of 18-25 year olds in Dili are unemployed.

"I acknowledge...corruption... but to say that this is a major stumbling block for the development of the country is a cliché."
Isn't it a "major stumbling block" for foreign investment if entrepreneurs must do business 'Chinese-style'(money under the table)??

"People can talk about GDP, per capita income and so on but the most important is healing the wounds, reconciling, and forgiving."

Justice facilitates forgiveness.The people of East Timor YEARN for justice. And there will be no long term peace in East Timor without justice. Horta knows this to be the truth!