.
Por Miguel Souto, da Agência Lusa - sapo.tl
Díli, 03 out (Lusa) -- Januário da Cruz, residente na ilha de Ataúro, espera com a família que abram as cancelas do Porto de Díli, para voltar a casa.
É um dos muitos timorenses que se aglomeram desde manhã cedo à espera de embarcar no Berlim-Nakroma, o ferry oferecido pela Alemanha que assegura a travessia da capital para aquela ilha e enclave de Oecusse, mas que poderá vir a parar em breve para reparação.
A multidão vai engrossando à medida que se aproxima a hora, e espera pacientemente que se cumpra um ritual que bem conhece.
Vieram a Díli abastecer-se de toda a sorte de mercadorias, visitar familiares, tratar de burocracias.
Primeiro entram as viaturas. Depois cada pessoa vai levar a carga que transporta consigo, para o navio ser bem estivado, e regressa novamente ao cais. Por fim entram todos, esgotando a segunda classe onde procuram os melhores lugares. Alguns ficam perto de amigos com quem se possam distrair na conversa durante as três horas de viagem. Outros sentam-se no convés a aproveitar a brisa que alivia o calor tórrido.
Mas Januário tem preocupações: o Nakroma vai parar para reparação e não há como voltar a Díli. Só atravessando o oceano nos pequenos barcos dos pescadores, quando o mar o permite.
Já há barcos-taxi mais seguros, mas têm "preço para malays" (estrangeiros, refere.
A bordo do Nakroma vai de tudo: jipes, motorizadas, mas também arroz (muitos sacos de arroz), mercearias várias e animais domésticos, desde cabras até ao típico galináceo das lutas de galos nos quais se aposta o que se tem e não, agravando-se neste caso as dívidas, resolvidas nos "penhores Formosura" ou casas concorrentes.
O Nakroma é uma aldeia flutuante de três horas de viagem, ou 12 quando a rota é para o o enclave de Oecusse.
Januário sabe a falta que o ferry faz. Tudo fica parado com o Nakroma, porque os "beros" (pequenos barcos de pesca) não dão para tanta mercadoria.
Ele admite que ouve falar há algum tempo que o Governo projeta comprar um segundo navio. Mas "de boas intenções está o inferno cheio" e Ataúro há muito que é uma "espécie de purgatório onde as almas estão esperando", adianta.
Januário, habituado aos vagares do tempo, vê passar os dias sem chegar o dito navio novo, mas não estranha.
Já "no tempo português" as melhorias anunciadas se ficavam por Díli e perdiam o barco para Ataúro... Pelo menos que venha um navio mais pequeno. Já era bom", comenta.
Ao cabo de três horas "mais ou menos", a ilha está à vista, e a bordo a tripulação corre a lançar as amarras. Os seus rostos, asiáticos sem dúvida, distinguem-se dos da generalidade dos timorenses.
"São indonésios", esclarece Januário. Não gosta nem desgosta deles, mas como "katuas" (pessoa de idade) espera ainda ver timorenses a tripular grandes navios como o Nakroma.
"Deviam ensinar a nossa juventude a pilotar, já que cá estão", finaliza.
Um pequeno safanão indica que o Nakroma acostou no modesto pontão de Ataúro, também ele a confirmar que as melhorias "perdem o barco e ficam-se por Díli".
MSO
*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***
Lusa/Fim
.
Por Miguel Souto, da Agência Lusa - sapo.tl
Díli, 03 out (Lusa) -- Januário da Cruz, residente na ilha de Ataúro, espera com a família que abram as cancelas do Porto de Díli, para voltar a casa.
É um dos muitos timorenses que se aglomeram desde manhã cedo à espera de embarcar no Berlim-Nakroma, o ferry oferecido pela Alemanha que assegura a travessia da capital para aquela ilha e enclave de Oecusse, mas que poderá vir a parar em breve para reparação.
A multidão vai engrossando à medida que se aproxima a hora, e espera pacientemente que se cumpra um ritual que bem conhece.
Vieram a Díli abastecer-se de toda a sorte de mercadorias, visitar familiares, tratar de burocracias.
Primeiro entram as viaturas. Depois cada pessoa vai levar a carga que transporta consigo, para o navio ser bem estivado, e regressa novamente ao cais. Por fim entram todos, esgotando a segunda classe onde procuram os melhores lugares. Alguns ficam perto de amigos com quem se possam distrair na conversa durante as três horas de viagem. Outros sentam-se no convés a aproveitar a brisa que alivia o calor tórrido.
Mas Januário tem preocupações: o Nakroma vai parar para reparação e não há como voltar a Díli. Só atravessando o oceano nos pequenos barcos dos pescadores, quando o mar o permite.
Já há barcos-taxi mais seguros, mas têm "preço para malays" (estrangeiros, refere.
A bordo do Nakroma vai de tudo: jipes, motorizadas, mas também arroz (muitos sacos de arroz), mercearias várias e animais domésticos, desde cabras até ao típico galináceo das lutas de galos nos quais se aposta o que se tem e não, agravando-se neste caso as dívidas, resolvidas nos "penhores Formosura" ou casas concorrentes.
O Nakroma é uma aldeia flutuante de três horas de viagem, ou 12 quando a rota é para o o enclave de Oecusse.
Januário sabe a falta que o ferry faz. Tudo fica parado com o Nakroma, porque os "beros" (pequenos barcos de pesca) não dão para tanta mercadoria.
Ele admite que ouve falar há algum tempo que o Governo projeta comprar um segundo navio. Mas "de boas intenções está o inferno cheio" e Ataúro há muito que é uma "espécie de purgatório onde as almas estão esperando", adianta.
Januário, habituado aos vagares do tempo, vê passar os dias sem chegar o dito navio novo, mas não estranha.
Já "no tempo português" as melhorias anunciadas se ficavam por Díli e perdiam o barco para Ataúro... Pelo menos que venha um navio mais pequeno. Já era bom", comenta.
Ao cabo de três horas "mais ou menos", a ilha está à vista, e a bordo a tripulação corre a lançar as amarras. Os seus rostos, asiáticos sem dúvida, distinguem-se dos da generalidade dos timorenses.
"São indonésios", esclarece Januário. Não gosta nem desgosta deles, mas como "katuas" (pessoa de idade) espera ainda ver timorenses a tripular grandes navios como o Nakroma.
"Deviam ensinar a nossa juventude a pilotar, já que cá estão", finaliza.
Um pequeno safanão indica que o Nakroma acostou no modesto pontão de Ataúro, também ele a confirmar que as melhorias "perdem o barco e ficam-se por Díli".
MSO
*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***
Lusa/Fim
.

2 comentários:
Ainda bem que os alemães ofereceram apenas! Se tivessem vendido, como eles venderam aos indonésios estamos bem tramados.
Nos anos noventa o então Ministro de Tecnologia, B. J. Habbibie comprou um navio de guerra ao alemães com um preço muito elevado, enquanto que o povo indonésio estava a apertar os cintos. Depois da compra, o navio rumou-se para Indonésia, entretanto quase que se afundou porque o navio era um velho navio e que já nada servia para estar nas águas. E então as autoridades alemães decidiram enviar ao país onde coleciona sucatas. A Indonésia pagou por uma enorme quantia!
Uns anos mais tard chega a vez de Timor-Leste. Recebe dos alemães um navio de cargo mas que já não servia de estar nas águas alemãs e decidiram-se enviar para Timor-Leste como uma oferta, ou seja outra forma de dizer, que esta prenda é para ser armazenada no país de sucatas.
Nos mídias timorenses, vem cada vez mais noticiando sobre este navio. Está sempre em reparação constante! De tantas reparações que se formos ver as despesas sairão mais caros que um novo, so o governo decidir um comprar-lo. Peças aqui, peças acolá, técnicos que vem daqui, espcialistas que de acolá tornaria mais caro na reparação. E o governo continua a dizer que o país cresce 12.5% mas falta de dinheiro para desenvolver as infra-estruturas como se fosse a economia tivesse afundida para 12.5%.
E como esta acontecer os geradores so compram sucatas e o arroz de qualidade inferior para poderem ficar com o resto do dinheiro ja gastaram quase 200 milhoes EDTL e 5milhoes de arroz Food Security perhaps for Gil Alves own finance security.
Abracos
de Aikurus
Enviar um comentário