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Jornal de Notícias - Elmano Madail
A irreversibilidade dos acontecimentos é cruel, e só a natureza humana consente a ilusão de contrariar as fatalidades. Da leitura da excelente biografia de um dos mais carismáticos diplomatas de sempre, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, redigida pela jornalista irlandesa Samantha Power, resulta o desejo de um final alternativo para um livro que não poderia ter outro desfecho.
E chega-se a almejar que esse andarilho brilhante tenha sido resgatado, com vida, dos escombros da sede da ONU em Bagdade, destruída por um atentado suicida. Não foi; ali morreu, a 19 de Agosto de 2003 (passam sete anos na próxima quinta-feira), abortando um percurso de tal modo marcante – no mundo lusófono, Vieira de Mello operou em Moçambique após a descolonização e ficou ligado à independência de Timor-Leste – que o Dia Mundial Humanitário assinala esse momento fatídico.
Power não omite o óbito do homem da ACNUR, antes o descreve com a minúcia com que revisita os 55 anos de vida (34 deles dedicados à ONU) do aristocrata que seguiu as pisadas do pai após estudar Filosofia na Sorbonne (Paris). Com espírito crítico, Power mescla a evolução do teddy boy de sorriso cativante para o diplomata que, confrontado com os horrores dos massacres da Bósnia e no Ruanda, se tornou mais pragmático, com o recenseamento dos pecados e virtudes do universo onusiano e ainda os bastidores da diplomacia, devidamente contextualizados.
Com o evoluir do pensamento de Vieira de Mello, resulta a compreensão dos conceitos de guerra justa e intervenção humanitária. Pois que aquele, se no alvor da carreira presumia resolver situações complexas recorrendo só às ideias, acabou por considerar também, sem perder a visão humanista do Maio de 68, um imperativo moral usar a força militar para impor a paz nos cenários onde a razão é a principal vítima da guerra.
Mais do que uma homenagem, este livro, muito bem editado – do volume constam cronologia, índice remissivo, iconografia e bastas notas de rodapé – constitui uma reflexão profunda sobre os limites da diplomacia, da ONU e dos homens.
TÍTULO: O Homem Que Queria Salvar o Mundo
AUTOR: Samantha Power
EDITORA: Casa das Letras
PREÇO: 24 €
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Jornal de Notícias - Elmano Madail
A irreversibilidade dos acontecimentos é cruel, e só a natureza humana consente a ilusão de contrariar as fatalidades. Da leitura da excelente biografia de um dos mais carismáticos diplomatas de sempre, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, redigida pela jornalista irlandesa Samantha Power, resulta o desejo de um final alternativo para um livro que não poderia ter outro desfecho.
E chega-se a almejar que esse andarilho brilhante tenha sido resgatado, com vida, dos escombros da sede da ONU em Bagdade, destruída por um atentado suicida. Não foi; ali morreu, a 19 de Agosto de 2003 (passam sete anos na próxima quinta-feira), abortando um percurso de tal modo marcante – no mundo lusófono, Vieira de Mello operou em Moçambique após a descolonização e ficou ligado à independência de Timor-Leste – que o Dia Mundial Humanitário assinala esse momento fatídico.
Power não omite o óbito do homem da ACNUR, antes o descreve com a minúcia com que revisita os 55 anos de vida (34 deles dedicados à ONU) do aristocrata que seguiu as pisadas do pai após estudar Filosofia na Sorbonne (Paris). Com espírito crítico, Power mescla a evolução do teddy boy de sorriso cativante para o diplomata que, confrontado com os horrores dos massacres da Bósnia e no Ruanda, se tornou mais pragmático, com o recenseamento dos pecados e virtudes do universo onusiano e ainda os bastidores da diplomacia, devidamente contextualizados.
Com o evoluir do pensamento de Vieira de Mello, resulta a compreensão dos conceitos de guerra justa e intervenção humanitária. Pois que aquele, se no alvor da carreira presumia resolver situações complexas recorrendo só às ideias, acabou por considerar também, sem perder a visão humanista do Maio de 68, um imperativo moral usar a força militar para impor a paz nos cenários onde a razão é a principal vítima da guerra.
Mais do que uma homenagem, este livro, muito bem editado – do volume constam cronologia, índice remissivo, iconografia e bastas notas de rodapé – constitui uma reflexão profunda sobre os limites da diplomacia, da ONU e dos homens.
TÍTULO: O Homem Que Queria Salvar o Mundo
AUTOR: Samantha Power
EDITORA: Casa das Letras
PREÇO: 24 €
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