Domingo, 4 de Julho de 2010

10 anos depois – DEITAR CONTAS À VIDA - 2

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Por ANA LORO METAN ,em Timor Lorosae Nação

O patamar de liberdade, justiça e democracia - paz, pão, educação, saúde, habitação - que já devíamos ter atingido, está muito aquém das nossas perspectivas e dos povos do mundo que nos têm apoiado. Timor-Leste está a ser ocupado por um novo tipo de invasores, os supostos cooperantes-vampirescos da ONU e uma "raça superior" da elite que nos tem expropriado em seu benefício.

Um país que por ter ficado completamente destruído podia renascer das cinzas devidamente organizado e fortalecido prossegue ainda hoje ao sabor do improviso, da inépcia, do livre arbítrio, do roubo, do assassinato político puro e duro, do caos e da impunidade dos mentores e operadores dos crimes.

CAMINHAR EM PASSO DE CORRIDA OU DE CARACOL?

Em Fevereiro de 2000 relatórios da Administração Transitória das Nações Unidas referiam que quase 80 por cento dos timorenses tinham votado pela independência. Cerca de 750 mil pessoas, dos 880 mil recenseados pronunciaram-se pela expulsão dos ocupantes indonésios e por via da resposta evidente a um referendo que nem devia ter sido alguma vez considerado realizar os criminosos e assassinos militares indonésios fizeram despoletar os seus maus instintos e frustrações sobre pessoas e bens, assassinando e incinerando indiscriminadamente. Uma vez mais o exército e polícias indonésios optou pela destruição e pelo genocídio que havia começado haviam 24 anos, desta vez recrutando também milícias compostas por traidores timorenses que apesar de terem praticado crimes hediondos continuam em liberdade e vivendo impunes – até com o beneplácito de Gusmão, de Horta e de outros líderes.

Cerca de 800 mil pessoas, de quase um milhão, viram as suas casas queimadas e ficaram desalojadas por consequência disso. Díli e outras cidades e povoações de Timor ficaram completamente destruídas. Ainda hoje estão por julgar esses crimes. Bem como os crimes de chacinas em igrejas, em casas, pelas ruas – não esqueçamos que tal acontece pela inadmissível opinião e pressão continuada de Gusmão, Horta e outros líderes, principalmente esses.

Tomando por exemplo Díli, capital completamente destruída, seria natural esperar que a Administração Transitória das Nações Unidas se dignasse reconstruir a cidade (assim como as outras) com um plano director inteligente, adequado à modernidade e ao meio ambiente, com a harmonia que reflectisse uma arquitectura ordeira, respeitadora da sanidade, das energias alternativas de protecção ambientais, etc, etc. Nada disso fizeram. Os sábios da ONU, depois UNTAET, foram mal amanhando a cidade como uma manta de retalhos, sem organização e racionalismo, com uma arquitectura que encontramos em qualquer bairro de lata do mundo desenvolvido. Quero dizer que a ONU tratou-nos que nem animaizinhos e fez do provisório definitivo. Isso não invalidou que fossem gastos milhões e milhões de dólares. Afinal para ficarmos com uma cidade anárquica, insana, feia todos os dias, tendo por salvação as deslumbrantes paisagens naturais que pertencem a Díli e, de resto, a todo o nosso país.

A propósito, há muito que me pergunto quantos milhões, nessa época, foram dispendidos para a reconstrução de Timor-Leste, quantos milhões foram realmente gastos nessa reconstrução, quantos milhões foram “desviados” para contas bancárias de ladrões e oportunistas? Obviamente que fazer uma reconstrução provisória-definitiva e caótica serviu aqueles que tiveram por intenção e conseguiram “reduzir” os milhões destinados à reconstrução do país. Todos sabemos que é nesse tipo de caos (desorganização organizada) que se fazem grandes fortunas. Sempre assim foi e não vale a pena negá-lo. Aparecem sempre uns espertos que não são senão meros ladrões. Com e sem gravata, com e sem colarinhos brancos – mas colarinhos brancos demais.

ELEIÇÕES (2 em 1)

Evidentemente que apesar de flagrantes atropelos aos mais elementares direitos dos cidadãos do mundo, neste caso os timorenses, Timor-Leste foi vendo de dia para dia crescer a estabilidade e um mínimo de normalização das vidas dos seus cidadãos. Era impossível que assim não acontecesse, perante tantos milhões de dólares e bens materiais, matérias de construção a entrarem, tudo doado por países e povos solidários, algo de positivo devia de começar a ficar à vista, a par do caos bem organizado e permissivo de “cobranças indevidas”.

Foi então que em 2001 ocorreram as eleições para a elaboração da Constituição. Como era de esperar a FRETILIN venceu essas eleições por maioria, seguindo-se-lhe, com uma votação ínfima, o PD, Partido Democrático, e todos os outros partidos, imensos. Em Abril de 2002 seguiram-se as eleições presidênciais. Xanana Gusmão obteve uma votação de mais de 80 por cento, em Maio seguinte tomou posse, quando da declaração da entrada em vigor da Constituição da RDTL. Estranhamente, com o acordo da UNTAET, de todos os partidos políticos e de Xanana Gusmão, fizeram das eleições legislativas uma lacuna, considerando o automatismo do resultado das eleições de 2001 para a Assembleia Constituinte para prevalecer na Assembleia Legislativa, no Parlamento Nacional. Chamado o processo do 2 em 1. Um erro de todo o tamanho. Aparentemente confortável para a FRETILIN, com maioria no PN sem ter de se esforçar por isso. Aqui foi revelado um oportunismo bacoco que mais tarde veio a sair caríssimo à FRETILIN e, principalmente, aos timorenses.

Passados meses, a partir do inicio de 2003, foi sempre com base no pretexto de que a FRETILIN não era afinal um governo legitimo - por não terem sido realizadas as eleições parlamentares – que os partidos políticos opositores ao governo de Alkatiri deram inicio a tecer uma teia com vista ao seu derrube o mais prematuramente possível. Era então já líder desse movimento Xanana Gusmão, presidente da república, que denunciar-se-ia plenamente sobre as suas intenções e acções em 2005-2006, quando do golpe de estado e da mortandade e destruições que causou.

Sem masoquismos, mesmo que superfluamente, devemos aqui analisar este processo de 2 em 1 que a UNTAET impulsionou sob a batuta de Kofi Anan e, por consequência, de Sérgio Vieira de Melo – sabendo-se em bastidores que Sérgio era contra esse processo.

Já o mesmo não se deve dizer da FRETILIN que, então partido maioritário nas eleições constituintes, ignorou que até podia sair mais reforçada em eleições para o Parlamento Nacional mas preferiu cumprir o adágio que “vale mais um pássaro na mão do que dois a voar”, uma decisão e prática antidemocrática da autoria da ONU, não por acaso.

A decisão, se bem que aparentemente seja da responsabilidade dos dirigentes timorenses, foi a soma da vontade de interesses do empório petrolífero, de Howard e demais cabecilhas do império global. Era exactamente o processo 2 em 1 que viria a permitir um rápido descrédito e desgaste do governo da FRETILIN, somado à sua inexperiência e erros, preconizado para 2003-2004 mas que só foi conseguido em 2006.

Estupidamente, a FRETLIN caiu na armadilha e entregou-se incondicionalmente sem exigir clareza e o cumprimento de regras democráticas na sua eleição e posse legitima de governo. Estupidamente, não nos cansemos de dizê-lo e de apontar este péssimo exemplo de défice democrático, para que não se repita em circunstâncias algumas, seja em que país for. Alegar que a solução ou processo 2 em 1 foi democrática por ter cobrado a anuência de todos os partidos políticos timorenses é retórica que devemos considerar desculpa de mau pagador. Não passou de uma "confusão" bem engendrada que deixava (deixou) a porta aberta para derrubar um governo que na verdade não era de todo legítimo. Não possuía a legitimidade para o efeito de governar por não ter vencido eleições parlamentares.

Ainda antes de procurar abordar ligeiramente as acções governativas do elenco saído do imbróglio 2 em 1. Temos por obrigação de não esquecer a pressa de Howard, o seu governo, as petrolíferas e todos os interesses que cabem no mesmo saco, de derrubar o governo da FRETLIN e, se possível, erradicar esse “perigo” de Timor-Leste. "A FRETILIN jamais poderia vencer eleições". Era, e é, essa a palavra de ordem nos bastidores. Cumprida em 2006-2007, com o golpe de estado, destruição, assassínios, instabilidade, etc. Tudo devidamente orquestrado pela Austrália e pelos EUA, através de agentes seus disseminados em ONGs, na ONU (UNTAET-UNMIT) e mais uns quantos avulso. A cumplicidade de Xanana Gusmão, de Ramos Horta e dos bispos da igreja católica timorense fizeram tudo o resto. O mau resultado continua à vista. Que não se infira desta análise que o governo FRETILIN foi exemplar e perfeito. Nem por isso, muito longe disso. Mas o seu maior pecado foi a gula de uns quantos oportunistas em detrimento de outros. Em detrimento, por exemplo, de José Luís Guterres e seus apaniguados, que sob a orientação de Gusmão e de interesses estrangeiros preferiram não defender no interior da FRETILIN os seus pontos de vista, as suas opiniões, mas sim avançar com algo que está por enquanto hibernado e a que chamam Fretlin Renovação, Fretilin do Guterres, Fretilin do Xanana… Mais certeiro e verdadeiro será a definição Grupo de Vendidos.

Timor-Leste, mesmo assim, está a caminhar para vir a ser um país, compete a todos nós deixarmos bem evidenciado que tipo de país queremos. Se este, caótico e apossado por governantes que se governam, que distribuem a riqueza de modo ilegal pelos seus familiares e amigos, deixando alastrar as carências sociais e de tudo o mais que são os padecimentos nacionais; ou outro país, o país de um Estado de Direito, em que as regras constitucionais sejam cumpridas, em que os que roubam, assassinam e cometem crimes sejam julgados e condenados por juízes competentes e imparciais que não tenham a possibilidade de argumentarem estarem a ceder às ordens e pressões do poder político e assim julgarem que mascaram as suas enormes cobardias e incompetências.

Afinal o que queremos? Caminhar em passo de corrida ou de caracol? É que o balanço destes dez anos que decorreram é negativo se tomarmos em consideração o tempo já passado e já perdido. O que podíamos já ter conseguido e que não conseguimos. Nem conseguiremos se formos consentindo que verdadeiros ladrões nacionais e estrangeiros nos continuem a expropriar dos bens que nos pertencem. Um deles é a dignidade, e isso não podemos, nem devemos, consentir.

*CONTINUA

**Ler primeira parte
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